_Onde está o fauno?
_ Resolvendo assuntos dele. Hoje eu contarei a história.
Houve certo muxoxo geral, mas muitos dos que estavam ali a respeitavam, sabiam de qual época havia vindo, logo, se mantinham curiosos sobre o que seguiria sua narração.
_ Minha historia é sobre o homem que conseguiu chegar a Arcádia, quando essa já havia se embrenhado nas brumas, e seu nome era Bran.
Ela cruzara as pernas sobre a cadeira de espaldar de pedra que pertencia ao Fauno, recostava a cabeça e coçava o queixo olhando a abobada formada pelas copas das arvores.
O fogo crepitava. Os seres estavam reunidos naquela clareira com sempre faziam todas as noites. Festejavam algo em seus grupos particulares, comia, bebiam, conversavam e contavam histórias. Assim mantinham a tradição de seus povos.
Ephaim tornava a olhar os poucos rostos que a esperavam falar.
E então começou:
_ Houve uma época em que podíamos fazer contato direto com os humanos sem que sofrêssemos sério dano. Essa época estava chegando ao fim, mas ainda havia alguns homens sonhadores que acreditavam na nossa existência, assim como existia o povo Outonal, que nos caçava.
Bran era um homem sonhador, e como não poderia deixar de ser morava em terras próximas a um dos portais que ainda sobreviviam na terra. Um dia uma jovem fada resolveu dar a Bran uma prova de nossa existência, não perguntem a troco de que…
_ Talvez estivesse apaixonada por ele!
Ephraim olhou a garotinha da qual a frase havia escapado.
_ Nós não nos apaixonamos querida, nossas partes humanas podem até faz-lo, mas aqueles que são completamente mágicos, como a maioria aqui, gostam apenas da pomposidade e do desafio do cortejo. Mas voltando.
Aine era seu nome. Aine colheu uma maçã prateada do templo, e um ramo dourado das arvores sagradas e atravessou o oceano em sua forma de cisne. Ao se aproximar de Bran ela fez com que ele adormecesse e sonhasse com nossas terras além mar, e como prova lhe deixou a maçã e o ramo.
Bran acordou do sonho mais belo que já teve. E recolheu a maçã e o ramo que estavam colocados ao seu lado, naquele momento decidiu que encontraria aquelas terras, custasse o que custasse! E por azar, Bran era um príncipe influente, e logo conseguiu homens que se atreveriam a segui-lo pelo mar nessa busca que consideravam maluca.
Numa tarde de primavera, Bran se jogou as águas com seus homens e navegou sem rumo aparente pelo alto mar. Houve uma tempestade aquela noite e muitos daqueles que estavam no barco morreram afogadas pelas bravias águas do oceano. Após a tempestade, suas vistas foram obscurecidas pela neblina, eles haviam entrado na Bruma, e pela manhã os recolhíamos inconscientes em nossas praias.
Foi um grande tumulto nas terras de Arcádia, um humano havia conseguido ultrapassar as barreiras do sonho! E conseguira trazer com ele outros três homens, aquilo era simplesmente inédito.
Então o Rei mandou chamar a Cosantóir e lhe pediu sua opinião. A mulher em questão tinha um coração gentil, e estava se divertindo com todo aquele rebuliço. Ela propôs ao Rei que os homens fossem postos em liberdade pela ilha, que fosse lhes dado a oportunidade de ver aquela terra com um olhar mágico, veriam o mundo como nós vemos, mas no instante em que deixassem nossas terras, suas consciências se esvaziariam, eles não se lembrariam com nitidez de como chegar até aqui, ou o que passaram enquanto ali, seria como acordar de um sonho.
E foi assim que fizeram. Trouxeram os homens a presença do Rei e lhes informaram sobre sua s atuais condições. A Cosantóir se encarregou de jogar a maldição do esquecimento neles. E assim por décadas os homens de Bran viveram entre as fadas, Aine se tornou a mulher de Bran. E eles vivam agradecidos por ter tão bela terra sem nenhuma restrição. Anos se passaram conosco, aprendendo conosco e nós aprendendo com eles, mas eles não faziam idéia de quantas décadas haviam perdido desde que partiram das terras mortais.
Eis que em uma noite nas terras da primavera eterna Bran, que não havia envelhecido um ano sequer, chegou ao rei e lhe disse que partiria, pois sentia saudades de suas terras, de seus pais e irmão. O rei o lembrou da restrição, que se partisse jamais poderia retornar para lá, mas Bran estava irresoluto, e foi embora na manhã seguinte com seus homens a bordo do navio.
A viagem lhe foi dada de presente, as águas estavam calmas e os ventos fortes, em menos de dois já avistavam o reino. Ao ancorarem, porém, já não reconheciam mais aquele lugar. Nada lhes era familiar e o castelo que antes era o orgulho do Estado estava em ruínas.
Estupefatos descobriram que haviam passado duzentos anos naquelas terras mágicas, que agora não passavam de neblina em suas mentes. Desesperados voltaram-se ao navio e se jogaram novamente ao mar, decidiram que encontrariam as terras mágicas e voltariam a viver lá pela eternidade. Mas Bran nunca voltou às brumas, e nem ao seu reino de origem.
_ Agora apaguem a fogueira, está na hora de eu voltar à guarda.
Ela sorria quando se levantou, como se aquela historia a divertisse imensamente.
_ Foi você a Cosantóir que propôs essa maldição Ephraim?
Dizia o troll recostado a uma árvore, de braços cruzados a fitando com aquela sua eterna expressão, que parecia ter sido esculpida em pedra.
_ Você acha Artus?