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Irmã-Branca

setembro 4, 2008

_Se antes de cada ato nosso pudéssemos prever todas as conseqüências dele, a pensar nelas a sério; primeiros as imediatas, depois as prováveis, depois as possíveis, depois as imagináveis; não chegaríamos sequer a mover-nos de onde o primeiro pensamento nos tivesse feito parar. Os bons e maus resultados dos nossos ditos e obras vão se distribuindo, supõe-se que de uma forma bastante uniforme e equilibrada por todos os dias do futuro, incluindo aqueles infindáveis, em que já cá não estaremos para poder comprová-lo, para congratular-nos ou pedir perdão. Aliás, há quem diga que isso é a imortalidade de que tanto se fala…

Terminava o curativo na pata da jovem raposa de pelo branco. Esta ouvia atentamente o que mulher, que a poucos minutos era como ela, lhe dizia.

_ Pronto, sorte que te encontrei, essa ferida poderia se tornar um problema se infeccionasse.

Esfregava a mão na testa do animal que se deliciava com o gesto.

_ Venha para a clareira, lá haverá muitos que se disponibilizarão a cuidar de você até que se sinta melhor, se tiver filhotes ou irmãos é só chamá-los também.

_ Eu venho de muito longe, além daquelas montanhas azuladas ao sul, estou sozinha aqui.

_ É mais um motivo para me acompanhar então. Mas é como eu já lhe disse, se achar que esse deve ser seu próximo ato.

_ Acha mesmo que eu não errei em vir até aqui? Acha que não foi culpa minha tudo que se seguiu?

_ Eu sou apenas uma Kithain, não posso julgar você ou o que fez. Mas se não houve uma real intenção, se não era isso que você queria causar ao seu povo, então fique em paz com seu coração.

_ Eu irei com você, irmã -vermelha.

_ Que bom.

(Ensaio sobre a cegueira)

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Bran, e o Sonho.

agosto 22, 2008

_Onde está o fauno?

_ Resolvendo assuntos dele. Hoje eu contarei a história.

Houve certo muxoxo geral, mas muitos dos que estavam ali a respeitavam, sabiam de qual época havia vindo, logo, se mantinham curiosos sobre o que seguiria sua narração.

_ Minha historia é sobre o homem que conseguiu chegar a Arcádia, quando essa já havia se embrenhado nas brumas, e seu nome era Bran.

Ela cruzara as pernas sobre a cadeira de espaldar de pedra que pertencia ao Fauno, recostava a cabeça e coçava o queixo olhando a abobada formada pelas copas das arvores.

O fogo crepitava. Os seres estavam reunidos naquela clareira com sempre faziam todas as noites. Festejavam algo em seus grupos particulares, comia, bebiam, conversavam e contavam histórias. Assim mantinham a tradição de seus povos.

Ephaim tornava a olhar os poucos rostos que a esperavam falar.

E então começou:

_ Houve uma época em que podíamos fazer contato direto com os humanos sem que sofrêssemos sério dano. Essa época estava chegando ao fim, mas ainda havia alguns homens sonhadores que acreditavam na nossa existência, assim como existia o povo Outonal, que nos caçava.

Bran era um homem sonhador, e como não poderia deixar de ser morava em terras próximas a um dos portais que ainda sobreviviam na terra. Um dia uma jovem fada resolveu dar a Bran uma prova de nossa existência, não perguntem a troco de que…

_ Talvez estivesse apaixonada por ele!

Ephraim olhou a garotinha da qual a frase havia escapado.

_ Nós não nos apaixonamos querida, nossas partes humanas podem até faz-lo, mas aqueles que são completamente mágicos, como a maioria aqui, gostam apenas da pomposidade e do desafio do cortejo. Mas voltando.

Aine era seu nome. Aine colheu uma maçã prateada do templo, e um ramo dourado das arvores sagradas e atravessou o oceano em sua forma de cisne. Ao se aproximar de Bran ela fez com que ele adormecesse e sonhasse com nossas terras além mar, e como prova lhe deixou a maçã e o ramo.

Bran acordou do sonho mais belo que já teve. E recolheu a maçã e o ramo que estavam colocados ao seu lado, naquele momento decidiu que encontraria aquelas terras, custasse o que custasse! E por azar, Bran era um príncipe influente, e logo conseguiu homens que se atreveriam a segui-lo pelo mar nessa busca que consideravam maluca.

Numa tarde de primavera, Bran se jogou as águas com seus homens e navegou sem rumo aparente pelo alto mar. Houve uma tempestade aquela noite e muitos daqueles que estavam no barco morreram afogadas pelas bravias águas do oceano. Após a tempestade, suas vistas foram obscurecidas pela neblina, eles haviam entrado na Bruma, e pela manhã os recolhíamos inconscientes em nossas praias.

Foi um grande tumulto nas terras de Arcádia, um humano havia conseguido ultrapassar as barreiras do sonho! E conseguira trazer com ele outros três homens, aquilo era simplesmente inédito.

Então o Rei mandou chamar a Cosantóir e lhe pediu sua opinião. A mulher em questão tinha um coração gentil, e estava se divertindo com todo aquele rebuliço. Ela propôs ao Rei que os homens fossem postos em liberdade pela ilha, que fosse lhes dado a oportunidade de ver aquela terra com um olhar mágico, veriam o mundo como nós vemos, mas no instante em que deixassem nossas terras, suas consciências se esvaziariam, eles não se lembrariam com nitidez de como chegar até aqui, ou o que passaram enquanto ali, seria como acordar de um sonho.

E foi assim que fizeram. Trouxeram os homens a presença do Rei e lhes informaram sobre sua s atuais condições. A Cosantóir se encarregou de jogar a maldição do esquecimento neles. E assim por décadas os homens de Bran viveram entre as fadas, Aine se tornou a mulher de Bran. E eles vivam agradecidos por ter tão bela terra sem nenhuma restrição. Anos se passaram conosco, aprendendo conosco e nós aprendendo com eles, mas eles não faziam idéia de quantas décadas haviam perdido desde que partiram das terras mortais.

Eis que em uma noite nas terras da primavera eterna Bran, que não havia envelhecido um ano sequer, chegou ao rei e lhe disse que partiria, pois sentia saudades de suas terras, de seus pais e irmão. O rei o lembrou da restrição, que se partisse jamais poderia retornar para lá, mas Bran estava irresoluto, e foi embora na manhã seguinte com seus homens a bordo do navio.

A viagem lhe foi dada de presente, as águas estavam calmas e os ventos fortes, em menos de dois já avistavam o reino. Ao ancorarem, porém, já não reconheciam mais aquele lugar. Nada lhes era familiar e o castelo que antes era o orgulho do Estado estava em ruínas.

Estupefatos descobriram que haviam passado duzentos anos naquelas terras mágicas, que agora não passavam de neblina em suas mentes. Desesperados voltaram-se ao navio e se jogaram novamente ao mar, decidiram que encontrariam as terras mágicas e voltariam a viver lá pela eternidade. Mas Bran nunca voltou às brumas, e nem ao seu reino de origem.

_ Agora apaguem a fogueira, está na hora de eu voltar à guarda.

Ela sorria quando se levantou, como se aquela historia a divertisse imensamente.

_ Foi você a Cosantóir que propôs essa maldição Ephraim?

Dizia o troll recostado a uma árvore, de braços cruzados a fitando com aquela sua eterna expressão, que parecia ter sido esculpida em pedra.

_ Você acha Artus?

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Passado

agosto 18, 2008

_ Cosantóir! Cosantóir! _ Uma garota de ar adoentado corria em sua direção, ela arfava e tropeçava pelo caminho. Cosantóir, senhora, tenho uma mensagem para você do sacerdote…*

A garotinha estendia o pergaminho lacrado, Catherine o tomava em mãos. O observava em silencio, o vento salgado brincava com seus cabelos, enquanto seus pés tocavam a areia fofa.

_ Sabe o que isso significa minha pequena Ephraim?

Catherine, a maior Cosantóir de Arcádia olhava temerosa para o lacre, era um selo ritual, estava sendo convocada.

_Significa o que já sabíamos irmã, que eles iriam mandar você.

A garotinha ao contrario de sua irmã, possuía feições adoentadas e olhos caídos, verdes, agora foscos. Os cabelos ruivos muito compridos e o ar infantil lhe davam uma falsa aparência inofensiva. Mas ela havia sido atacada a pouco tempo, e nesse momento estava realmente fragilizada.

Sua irmã, Catherine tinha olhos azulados tão brilhantes que pareciam ter capturado o brilho dos céus ao nascer, sua pele também azulada, era lisa e radiante, os cabelos brancos compridos lhe escorriam pelos ombros largos e fortes, adornados por pequenos chifres que espiralavam ladeando sua cabeça. Ela trajava um vestido branco fino e leve que contornava suas formas.

_ Precisamos nos arrumar irmã_ dizia a menor a segurando pela mão.

Catherine não se deixava puxar. O dia a envolvia como tal aura que parecia vibrar, o sol tão poucas vezes visto através das brumas aquecia as águas do oceano, bem ali, a pouco passos das duas mulheres.

_ Sabe minha pequena, podemos não ser realmente irmãs, mas eu lhe tenho com tal carinho como se fossemos.

A mulher se abaixava junto a criança e lhe beijava a testa

_ Muitos prevêem a queda de Arcádia, talvez eu não viva pra vê-la, e assim será melhor._ ela fazia uma pausa ao que olhava para os olhos da menina como se lesse sua alma_ Mas você vai viver, você verá esse dia e terá de fazer escolhas difíceis, e se tornará uma guerreira. E essa é a única previsão que irei fazer para você.

_ Aquela noite ela partiu, lembro-me que as brumas se abaixaram para deixar que os barcos partissem, e foi a primeira vez que o vi assim, as estrelas tocavam o mar no horizonte, não havia lua, e Catherine acenava da proa do navio, e assim se foi para sempre, se tornou novamente um sonho…

O troll a olhava admirado.

_ Então você é mesmo a irmã de Catherine?

_ Ela não foi somente a maior Cosantóir de Arcádia, Artus, é o ser do qual mais sinto falta.

_ Então ela foi para a maior batalha entre Quimeras e Kithains que já se teve noticia, como devia ser por ser uma Cosantóir, liderou o exercito após a queda do Sidhe Rei Torence, e pereceu antes que pudesse ver sua batalha sendo ganha.

_ Assim contam os mais velhos…

A garota parecia querer desconversar sobre o assunto, ele não a forçaria mais.

_Ainda temos uma longa noite de vigília pela frente, por que não me conta como você se tornou Cosantóir?

_ Bom, tudo começou cerca de 20 anos depois que Catherine partiu, eu já tinha idade o suficiente então…

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Samhain

agosto 11, 2008

“Samhain… a noite dos antepassados. Quando festejamos aqueles que já partiram para junto da Mãe.”

Ephraim murmurava observando o céu da noite do Sabat. Sentada de pernas cruzadas sobre uma pedra, a alabarda apoiada no chão e recostada ao ombro, as costas eretas forçada pela armadura, e os dedos vestidos em manoplas que escondiam suas garras, tamborilavam as grevas que envolviam suas canelas.

Era um dos guardiões do ritual, que se posicionariam nos quatro pontos cardeais. Os quatro tinham a responsabilidade de zelar pela segurança daqueles que viriam festejar o Samhain no bosque sagrado. Depois da função do velho sacerdote, era a considerada de maior honra entre aqueles seres tão diferentes, mas que formavam um único povo.

Aos poucos a clareira a suas costas se enchia de luz e canções, o cheiro da comida se espalhava atraindo a atenção de alguns animais que também eram convidados a fazer parte da festa. Cerca de uma hora após o inicio das comemorações uma jovem sátira lhe trouxe uma bandeja com frutas e pão. Que foi muito bem recebida não só por Ephraim como também por alguns animais que mantinham uma conversa empolgada sobre luas e artes.

_Pegue o que quiser Heino, não posso me enfartar ou beber essa noite.

_“ Não sei por que considera essas posições de guardas como uma honra tão grandiosa se perde todo o espírito da coisa.”

_ Todos vocês poderiam sofrer uma morte horrenda se alguma quimera os encontrasse bêbados e gordos sem ninguém que lhes protegessem os fundilhos, isso é uma boa razão.

As sonoras gargalhadas do esquilo , que eram ouvidas apenas por aqueles que possuíam alguma empatia, logo ressoaram sobre o silencio que se estabeleceu na clareira.

_Vão começar as histórias…

O pequeno sentiu o costumeiro calafrio quando, na mesma pedra em que se encontrava uma guerreira, se via também uma garotinha pequena, de olhar melancólico, como se as duas realidades se fundissem acontecendo ao mesmo tempo.

Um velho Fauno se recostava em sua cadeira de espaldar feito em pedra, jogava um punhado de terra roxa no fogo que se contorcia e esverdeava, e então quando o silencio se fazia quase sólido, ele começava sua história.

“Dizem que surgimos dos pensamentos dos seres de pouca vida, isso é mentira. Fomos os primeiros. Quando Gaia suspirou sobre a terra, seus sonhos jorraram de seus lábios, e nós nascemos. O fato é que no inicio de tudo ajudamos na criação, e quando os primeiros animais chegaram, estávamos aqui…”